terça-feira, 11 de maio de 2010

A Glass Wall...

Passeava eu pelo nosso jardim às vinte menos sete da manhã. De blazer torto e sapatos por engraxar. Headphones nos ouvidos e dedo a premir o botão para a próxima música aparecer. Sabia a música que queria era a Through The Glass dos Stone Sour. Quase a passar pelo grande portão que definia a entrada da saída, abrandei ao examiná-lo. Cantarolava no meu pensamento acompanhando perfeitamente a melodia que tinha nos ouvidos. Pensei em ti, na tua voz e no teu olhar. Estava quase na saída, passo a passo mais próximo. Recordei-me de um vídeo que em tempos me tinhas mostrado. Instantaneamente ao recordar o vídeo imaginei-nos na mesma situação. À minha frente apareceu enquanto eu pestanejei uma única vez, ainda ensonado uma parede enorme de vidro, enorme quer em altura quer em largura. Do lado de lá estavas tu mas antes de te ver olhei para trás, pensei em voltar para trás, o homem que estava a correr tinha desaparecido. Continuei em frente, dirigindo-me para o vidro. Estavas encostada de lado a admirar as poucas nuvens existentes no céu. Parei a admirar-te. Estavas mais bela que nos outros dias, parecias brilhar mais! Reparaste na minha presença viraste-te e ficámos frente a frente. Não sabia porque permanecias daquele lado do vidro. Não sabia se serias tu ou eu que estava do lado errado. Poisei a minha mala no chão, tirei de lá toda a minha roupa e do fundo tirei o estojo de facas. Com ele na mão andei não muito mais que dois metros para a tua esquerda. Abri o estojo e com o punho da faca de chef tentei quebrar o vidro. Uma vibração estranha correu pelo cabo vermelho desfazendo-o. Encolheste-te ao ver os pedaços de plástico saltarem da minha mão com aquela brutalidade. Esta estava agora dorida e com um leve corte na palma. Desesperado com o sucedido agarrei numa colher para tentar escavar o chão mas este de pedra não quis romper. Voltei para a tua frente com uma lágrima a escorrer pela bochecha. Viraste-me costas, sentaste-te no chão. A tua mala poisada no solo com violência tal como a minha, demonstravam um pedaço da nossa frustração. Olhei para as tuas costas, para a tua cabeça coberta pelos teus caracóis, as tuas pernas juntas ao peito. Cai de joelhos, não percebi nada do que se estava a passar. Bati no vidro com a mão que não estava a sangrar. Olhaste para trás mas foi como se eu não estivesse lá, não me ligaste. Voltei a bater, desta vez com mais força. Viraste-te com esforço, como se o teu corpo estivesse muito pesado. A minha mão sobressaiu ao teu olhar. Já de pé e também com uma lágrima sobre o rosto colocaste a tua palma sobre o vidro. Fiquei estático. Tiraste da mala a tua chave de casa e escreveste a palavra “TOCA-ME” desenhando também uma seta que indicava a tua mão. O vidro continuava lá. Fiz-te sinal para esperares. Olhei para cima mas era demasiado alto para escalar, corri para ambos os lados mas a parede não terminava. Persistente continuaste com a mão sobre o vidro. Como não arranjei maneira de te tocar mesmo na tua pele e cruzar os meus dedos com os teus, toquei-te com o vidro entre nós. As gotas do meu sangue escorriam pela parede. As nossas outras mãos dirigiram-se uma para a outra ao mesmo tempo, em perfeita simetria. O vidro começou a derreter após a minha ferida ter sarado. Já sem vidro abraçámos-nos e beijámos-nos, acabando com o momento dizendo a palavras amo-te um para o outro...

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