quinta-feira, 8 de abril de 2010

The Way...

Seis da manhã, o silencio permanece em meu redor. O estore está quase fechado, apenas com três filas de gretas abertas, passivas, permitindo aos raios de sol que as transpusessem. Contei cada quadradinho de sol que repousava, estática e calorosamente na parede. Eram exactamente cem menos dez. Por cada punhado de sol que se encontrava naquela parede, pensei num local para onde poderia fugir, sem dizer nada a ninguém, lugares para os quais eu pudesse começar a correr sem olhar para trás. O telemovel, sossegado em cima da mesa de cabeceira, acendeus a luz. Acusava bateria fraca, um sorriso veio directamente aos meus lábios, não queria que me chateassem e em breve ninguém me iria chatear pois restava pouco tempo para partir, pouco tempo que não seria passado a carregar o telemovél. Com o pouco de bateria restante, acendi o ecrã e com essa pequena luz, vesti-me sem fazer um único barulho. Ao fundo do meu quarto encontrava-se uma mochila vazia encostada à minha guitarra. Peguei nela e pus lá para dentro o essencial para a minha partida. Lá dentro apenas entrava o necessário, para sobreviver uns tempos, na viagem que não iria ter destino, rumo, que não iria ter despedida e quem sabe um retorno. No bolso frontal do lado direito encontrava-se uma caixa de pastilhas, no do lado esquerdo a tua rosa, uma recordação tua que me ajudaria no caminho até à primeira paragem. Na minha cabeça recordações, a inconsciencia do acto que estava a tomar, a rebeldia que me corria pelas veias substituindo o sangue.
Sai de casa, passo a passo sem fazer um unico som. Não queria que soubesses da minha partida, não era a primeira pessoa que virias a sair assim do teu alcance, não queria uma despedida porque não valeria a pena, o meu destino não era permanente, apenas umas férias, apenas me apetece cometer uma loucura, talvez apenas queira ver a tua reacção. Fechei a porta sem barulho, deixei a minha chave na fechadura, voltei-me para trás de olhos fechados, como balanço para encarar a realidade. Quando abri os olhos, aquilo que antigamente fora alcatrão havia sido transformado em terra batida, como toda a minha vida disse. A minha vida não passa de uma estrada de terra batida, onde existe a pureza, a alegria no que sou. Onde nunca entrará o alcatrão, que não passa de olhares de lado, dores de cotovelo, rumores e maus caminhos. A estrada era do castanho mais puro que alguma vez vira na vida. Descalcei-me e corri nela umas dezenas de metros sem olhar uma unica vez para trás. Parei, abaixei-me agarrei num punhado de terra e ao senti-la deslizar por entre os meus dedos, apercebi-me de que tudo isto era real. Grão a grão caia aquela pura magia, estava fria, sem uma gota de água. De ambos os lados estavam arvores gigantes que me traziam sombra se eu assim o desejasse. Caminhei longas horas, curvando quando a estrada desejava que eu devia curvar, abrandando quando as minhas pernas pediam para parar, mas nunca parava. Nunca olhava para trás, o caminho era para a frente. De pastilha na boca tentando enganar o estomago, de que era comida, a fome apertava. O verde das arvores desaparecera, deixando o azul do céu à volta, quer de um lado quer do outro. Fadigado de tanto caminhar dei por mim com um pé dentro de uma poça, não bebia àgua desde que acordara. Aquela pequena poça, suja pela terra que a rodeava e pela pisadela que acabara de levar, no meio daquele local, seco e solarento parecia um pequeno lago. Deitei-me, levei as minhas mãos à água, estava morna. Bebi dela, atordoando-a, obrigando-a a agitar-se e ela revelou-me mais do que aquilo que eu estava à espera. Incrivelmente, vi-a a alastrar-se agora tinha pouco menos de cinco palmos e algo impercebivel reflectia nela. Eram recordações, recordações que ao tê-las lembravam-me o porque de eu não querer coisas como o alcóol, ou o tabaco. Coisas dessas vinham da tua estupidez, da tua figura de parvo que fazias com o cigarro na boca e a cerveja pousada na mesa em tua frente. Recordei-me de onde vem o meu caracter, a minha personalidade, vem dos teus erros da tua falta de responsabilidade. Lembrei-me que não me lembro que alguma vez me tenhas dito um adoro-te, ou um gosto de ti. Mas o passado é passado e o que interessava era o momento. Pontapiei a poça, dissipando-a de forma a não poder jamais voltar a ser um pequeno lago.
Larguei a mochila, os bens materiais não me iriam fazer falta. Continuei a caminhar, pensado na pessoa que sou, pensado se serei alguém que vale a pena conhecer, que vale a pena recordar, se tenho bons principios, se alguma vez serei um exemplo e principalmente, como me vez tu agora que estás ai. Pensei no que faria se te visse outra vez nesta estrada, se permitiria que ela fosse alcatroada de forma a desapareceres ou se corria para os teus braços. As forças continuavam a escacear, foi quando olhei pela primeira vez para trás. Uma chuva intensa, forte, com gotas grossas e pesadas disparou. A terra ia ficando molhada alastrando-se para lado nenhum dando liberdade a uma estrada de alcatrão, agora completamente gelado, tinha a certeza que queria voltar para trás. Aquela tempestade não parava e eu já tinha dado os primeiros dois lentos passos na direcção contraria à que afirmei caminhar em busca de um futuro, em busca de uma resposta. Foi então que me lembrei de quem realmente era, aquele que não quer saber do que os outros dizem, aquele que se orgulha de ser quem é e como é. Aquele que apesar de se sentir fraco de afecto ama, aquele que apesar de sofrer, supera-o com um sorriso e meia centena de palavras. Voltei a caminhar para o local onde inicialmente ia mas faltava algo. A tua imagem veio-me à cabeça era de ti que eu precisava para encontrar o fim da estrada. Ao recordar-te o meu coração palpitou mais depressa, apixonado, uma força extrema apoderou-se de mim e corri por entre a chuva, que insistia em fazer-me recuar. Tropecei várias vezes, sempre à tua procura quando te vi, abrigada numa espécie de cubicolo. Espreitaste e uma gota tocou no teu rosto quente e evaporou, o sol eliminou todas as gotas para admirar a tua beleza, a beleza que me pertencia. Tocaste-me enchugaste as minhas roupas como por magia. Beijei-te, durante muito tempo, os nossos lábios cruzavam-se, sobrepunham-se lentamente e apaixonadamente, de olhos fechados e acariciando os contornos corporais um do outro com as nossas mãos. Parecia como o nosso primeiro beijo, algo lindo, romantico que poderia durar para sempre, que queremos que dure para sempre. Os nossos dedos cruzaram-se, tocámos nas costas um do outro apertando os nosso corpos firmemente um contra o outro, sentidomo-nos mais próximos, mais quentes, mais fortes. Caminhá-mos de olhar fixo um no outro, quando chegámos ao fim, onde uma pilha de terra permanecia, pedindo-me para ser moldada, para ser continuada, para ser cuidada. Dizendo-me que o meu dever neste momento é amar-te. agarrar-te com força não te deixando fugir porque és diferente, porque me fazes bem, porque te amo.

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